Dias de verão…

A avenida da praia parecia o deserto do Saara. Entre as ondas de calor vindas do asfalto on fire passavam pedestres, banhistas e motoqueiros alucinados por entre os carros.
A gritaria chamou minha atenção. No ponto de ônibus lotado uma mulher alucinada disparava barbaridades sem fim. Comecei a ouvir também. O motoqueiro olhava para os lados nervoso, obviamente procurando um buraco para o outro lado do planeta, bem longe daquele auê. A multidão foi ficando tão maior que até o balconista da padaria e o moço que consertava a fiação da TV à cabo pararam pra ver.
Ela gesticulava frenéticamente, jogou o capacete no chão, pegou o capacete, amassou alguns papéis, cuspiu na cara dele e nada. Ele continuava inerte, com o restinho da dignidade que ainda lhe restava.
Os motoristas, emparelhados, começaram a comentar. A mulher foi ficando vermelha, falou em gravidez, falou em traição, falou da mae, da sogra, falou da lua de mel em Ilhéus, do sonho da casa própria, da loira vadia de vinte e poucos anos, até da festa de formatura da faculdade ela falou.
Chegou a polícia, chegaram os bombeiros, chegaram os caras da CET. Ninguém teve coragem de fazer nada.
Ela falou em se matar, empurrou ele da moto. Ele caiu, mas não fraquejou. O sinal abriu, os carros emparelhados foram obrigados a circular e a minha curiosidade seguiu o fluxo. O circo armado continuou lá.

Com certeza, ela sofre até agora.

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1 comentário

  1. Vim deixar um beijo pra vc e dizer que ainda leio seus pensamentos públicos exteriores, hehehe!
    ;*

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