A pizza.

A aula de desenho foi sensacional como sempre. A cada dia descubro mais semelhanças entre eu e a minha professora, desde o fato dela ter detestado a faculdade de jornalismo até o gosto pelas mesmas ilustrações, comidas,  desejos e caminhos. Parece que somos a mesma pessoa, só que em vidas separadas. Sinistro.

Desde ontem eu estava com um desejo desenfreado de comer pizza. Sonhei com pizza, briguei com o meu pai porque queria pizza e hoje, antes de fazer meu estudo de observação, fiz um único pedido antes de sair de casa: comprem pizza. Entrei no carro faminta e minha mãe deu a bombástica notícia:

– Ninguém quer comer pizza. Têm arroz, feijão e purê.

Surtei.

Não pela pizza em si, mas porque estava entalada com mil coisas na garganta. Voltar para a minha casa fez relembrar todos os motivos pelos quais saí dela. Quero poder desejar e ter. Quero minha liberdade de volta, quero a minha casa, a minha cozinha, o meu jeito de preparar as coisas. Quero poder pedir pizza sozinha, pra comer sozinha e pagar com o meu dinheiro. Quero uma vida, quero estudar, quero poder sonhar todos os sonhos possíveis e impossíveis sem ser censurada. Quero dar festas até de madrugada, quero sair pra andar no meio da Paulista às 3hs da manhã só porque me sinto triste, quero a Paulista de volta, quero poluição, correria, stress, ônibus lotado. Quero responsabilidades mil.

Se voltar pra Santos não proporcionar a realização de mais nenhum dos meus sonhos, exatamente como eu previa que iria acontecer, quero voltar para onde eu estava. ainda que infeliz, era infinitamente mais livre, mais eu, mais leve. Era melhor.

Vim pra cá porque fracassei. Porque todo o dinheiro investido em mim não teve o devido retorno, porque fui, tentei e não deu certo. Porque já não tinha mais dinheiro pra gastar, porque estava envergonhada por não ter conquistado nada além de um diploma de uma faculdade da qual eu não me orgulho, porque nem amor mais, eu tinha.

Voltei pra não ter que ouvir e acabei ouvindo ainda mais. Voltei porque queria parar de sofrer, e acabei sofrendo ainda mais. Voltei pras coisas que eu deixei e elas já haviam partido. Voltei para ficar porque achava que aqui era o meu lugar… Mas há muito tempo não é mais. Nem São Paulo é também. Eu não sou mais de lugar nenhum. Ando perdida.

E toda essa infelicidade… Pelo desejo de querer ter – e não poder – um simples pedaço de pizza.
É tanto sentimento em mim… Que num tenho mais onde por.

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4 Comentários

  1. Bem, esse seu post é complicado de comentar, pq eu meio que oscilo entre esse mesmo sentimento de derrota que vc está sentindo e uma felicidade sem explicação, que nem eu mesma sei porque existe. Mas tem algo que eu posso comentar: a perda da liberdade.

    Apesar de meus pais não serem tão controladores, eu também sinto falta do que é meu: meu emprego, meu dinheiro, meu tempo. Sinto falta de olhar uma vitrine e comprar algo inútil com meu dinheiro; sinto falta de sair do trabalho e pensar em ir ao cinema, ou encontrar as amigas; sinto falta de sair de casa e dizer: vou trabalhar – mesmo que o dia esteja nublado e chuvoso, como o de hoje.

    Melhoras menina! Não se sinta tão triste. Apesar da distância, o ombro virtual estará sempre às ordens. =D

    bjos

  2. Calma moça, não fique assim, as coisas vão melhorar!!!
    E vc vai voltar para São Paulo e vamos na Paulista de madrugada juntas ok?
    bjocas

  3. Põe os sentimentos no lugar da pizza, já que ela não veio.
    Até eu, que moro em São Paulo, fiquei com saudade de São Paulo.
    Quer passar uns dias em casa?
    Beijão

  4. A gente se acostuma fácil com a vida boa, né? Uma vez a Rebeka me disse que se sentia mais em casa em São Paulo do que no litoral. A liberdade que é viver sem depender dos pais é algo que a gente vai perseguir até sair de vez da casa deles.

    Ter todos os nossos pedidos limitados por ninguém além de nós mesmos.

    Como a Marina disse, põe os sentimentos no lugar da pizza. Ela vai vir uma hora e você irá saborear como se não houvesse amanhã.

    Amo você, xuxu!

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