o valor nosso de cada dia.

Em mais um almoço inspirador com os meus queridos da agência, falávamos sobre valores. Os valores do mundo atual. Sobre aqueles detalhes que as pessoas se prendem quando vão conhecer alguém com fins românticos e tal e em como, sutilmente, demonstramos nosso caráter ao falar dessas tais pessoas para os outros. Mais que “ele tinha uma barba linda” ou “o sorriso dele era cativante”, ouvimos informações que passam despercebidas aos ouvidos mais destreinados, mas que indicam, de pronto, o que alguém espera de um relacionamento.

– Ai, amiga, ele é advogado. Trabalha com aqueles processos enormes, sabe? Comprou recentemente um Fox.

– Mas e ele é bom de papo? Como fluiu a coisa toda? Ele te levou onde?

– Fomos num barzinho lindo em Moema. Super cavalheiro, ele fez questão de pagar a conta.

– Ih, será que agora vai? Você acha que vale a pena investir nesse bofe? Acha que a coisa fica séria?

– Ai num sei, amiga, fiquei insegura. Ele me falou que não está muito contente nesse emprego, sabe como é, gente instável não dá.

Perceberam que todas as afirmações em relação ao ocorrido na noite passada, tiveram, discretamente, a ver com dinheiro? Que às vezes identificamos as pessoas por aquilo que elas tem e não por aquilo que elas são? O advogado que acabou de comprar o Fox e pagou a conta pode adorar viajar. Deve ter um real prazer em ler. Certamente detesta usar terno e gravata todos os dias. O advogado pode ser um piadista, um cara super bem humorado. Talvez tenha muitos amigos, talvez seja mais reservado. Quem sabe? A minha amiga nunca saberá se ele escuta rock ou samba, se prefere vinho ou cerveja. Nunca saberá também se ele tem irmãos, se os pais são separados ou o que esse sujeito gosta de assistir na TV aberta. Nunca saberá, sequer, se ele assiste TV aberta. Ela não sabe, também, se vai dar uma segunda chance para o tal advogado. Não sabe se vai valer a pena. É complicado mesmo gostar de alguém instável, mas emocionalmente falando. Porque financeiramente, meus caros, exceto se você nasceu filho de pai rico, tudo pode acontecer. Basta trabalhar, ter plano, ter cheiro, abraço e sonho que  o resto se ajeita, pode acreditar.

As pessoas não são substantivos. Não são FOX, advogado, conta pra pagar. E damos a elas essas adjetivações que não tem sentido nenhum na língua portuguesa, mas que no mundo real, no tete-à-tete, na hora do vamos ver, parecem contar.

Não que mulher só pense em dinheiro, não é isso. Aliás, tem muita mulher por aí que se apaixona, de verdade, por aquilo que o sujeito de fato é, coisa boa ou ruim. Mas num primeiro momento, homens e mulheres se atraem pela casca, por àquilo que o outro parece ser, ter, por aquilo que ele expõe. Se somos mais que Iphone e carro do ano, mais que roupas de marca e tatuagens descoladas, se somos mais que restaurantes caros e programas luxuosos, porque, então, buscamos encontrar alguém que socialmente nos eleve?

Onde é que foi parar a nossa essência?

Pois é.

Também comecei a me perguntar.

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por uma bunda mole.

Entro em tantos blogs de beleza, moda e beauté, que encanei que estava com a bunda molenga. Não muito molenga, mas um pouquinho sabe? Com uma celulitezinha na parte de baixo? Que você vê quando apoia o peso em uma perna só? Então.

Eu, que nem bunda tenho direito, me vi velha, me vi flácida, um pecado, um problema, uma coisa assim, inimaginável. Parei de comer doce e tomar refrigerante. Fui ver o preço de uma academia perto de casa, super empenhada em perder algumas horas de sono pela manhã e quase caí pra trás: não sabia que pra ter uma bunda dura era preciso investir mais de 1/4 do meu super suado salário de jornalista.

Pensei em começar a andar todos os dias no parque, mas de manhã, com esse frio paulistano, sozinha, dava uma pãtcha preguiça. Como minha motivação para a atividade física não era assim, tão proporcional a de endurecer os glúteos, logo, desisti.

Falavam tanto sobre reeducação alimentar e mudança de hábitos, que deixei de lado os hamburgueres, a cervejinha do final de semana e os amendoins. Como meu colesterol já é mesmo um côco, os primeiros 15 dias não foram tão sofridos. Só jantava salada. Parei de tomar o leite integral tipo A, que eu tanto amava, e substitui todos os pães por aqueles de grãos, integrais. O Toddy, o requeijão, o suco de uva, a farinha de trigo, o creme de leite, o salame e até o sabão em pó que eu comprava, passaram a ser light. Com ômega 3. E se estivesse escrito na embalagem que era 0% de gordura trans, então, já investia logo em 3 pacotes. Do absorvente à pasta dental.

Nunca precisei emagrecer, muito pelo contrário. Acho que precisava era engordar. Mas estava tão frustrada por não fazer nada em relação a mim mesma que entrei em fóruns e páginas sobre o tema, cismei que precisava começar, nem que fosse em casa, pelo menos uma ginástica localizada. Fazia agachamentos na frente do espelho e assistia, minuto a minuto, o “engeleamento das pernas” acontecer. Trashíssimo.

Passei para a fase de apelar para a estética. Comprei um creme de celulite que esquentava, outro que esfriava, outro que drenava, outro que endurecia e um outro pra estrias (vai que elas surgissem de um dia para o outro?) Foi fácil comer menos nesse mês, aliás, já que gastei tanto com cremes que fui obrigada a viver de atum enlatado fo-re-ver. E não morri. Assim como se tivesse comido pão com ovo todos os dias. Era por um bem maior.

Sabe, toda a minha motivação para ter a bunda dos sonhos fazia parte da porra do sistema, na verdade. Não vinha de mim. Eu nunca me alimentei mal, nunca tive uma vida sedentaríssima, nunca fui de tomar 30 litros de refrigerante, e olha, sinceramente, não ligo pra doce.  Somos tão intensamente bombardeados com a ideia de que emagrecer é importante, de que ter um corpo bacana é importante, que não dá pra fugir. Do dia pra noite, todo mundo no mundo resolveu ter uma vida saudável. Resolveu andar de bike, parar de fumar, comprar aquela calça listrada horrorosa e fingir que alface pode ser muito, muito gostosa – basta apenas mudarmos de hábitos. Isso não é de todo ruim, ou de todo falso. Alface pode mesmo ser uma delícia, com bacon e molho. Com pedaços de filet mignon. Ou como parte de um PF daqueles, com um bife à parmegianna caprichado no queijo e no molho ao sugo. E sim, alguns hábitos podem ser responsáveis por uma morte prematura e devemos, de fato, cuidar mais do nosso corpo.

A questão é que não é todo mundo que precisa emagrecer; as pessoas precisam é ser mais felizes.

E parar de fingir que a saúde é o principal motivo que move os seres humanos a perder peso, porque não é. O que nos motiva a mudar, sempre e em qualquer ocasião, é a vontade de sermos admirados, queridos, inseridos. A vontade de caber numa saia 36 quando quase 80% da população brasileira (que é linda, por sinal!) veste 42.

Reveja o que você faz. Reflita se as atitudes que guiam sobre sua vida vem mesmo de você, se fazem sentido no seu contexto, se serão elas as responsáveis em te fazer atingir aquela satisfação pessoal que você ainda não encontrou.

E como bacon. Pelo menos no Natal.

É ótimo.

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