sobre a magreza e a felicidade.

Fiquei assustada quando ouvi pela primeira vez que minha vida deve ser muito mais fácil (e feliz) por eu ser magra. De verdade. E isso se repetiu mais umas duas, três, quatro vezes. Na fila do banco, no restaurante por quilo. Na farmácia comprando pílula, na festa de criança que eu fui semana passada.

Não é fácil ser feliz, cara. Pra ninguém. E não cabe na minha cabeça porque ser magra passou a ser sinônimo de felicidade. Ser magra, na verdade, pode ser um saco. Tudo veste em você que nem um cabide. Num tem decote, nem saia curtinha que faça seu peito ou sua bunda parecerem maiores e vou te dizer: que coisa horrível é usar sandália anabela tendo dois gravetos no lugar das pernas. Pessoal, ser feliz é mais que ter barriga negativa. Acredito, aliás, que tenha mais relação com a positividade de todas as coisas de que com essa coisa de querer, a todo custo, parecer esquelética.

Não é chato quando um homem só consegue pensar no tamanho do bíceps? Então por que a gente tem que se tornar psicótica por malhação? Por que num dá pra tentar viver com MODERAÇÃO ao invés de ser alocka do Way Protein?

Sou feliz porque coloco um sutiãzinho com bojo, um batom vermelho e óh, tô lindona, tô travesti. Sou feliz porque eu quero ser. E miserável também, inúmeras vezes. Sou feliz na casa com piscina, na rua, na chuva, na fazenda. E você também pode ser. Num tem cintura? Mete um cinto! Acha as pernas muito grossas? Põe um salto aí, mulher! Alonga esse corpão! Não deixe, jamais, de comer um belo de um chocolate na TPM ou de fazer a dieta das ervas quando se sentir inchada, não deixe que essa ou aquela conduta domine a sua vida: é você quem manda nela.

Quem consegue suportar gente obcecada por dieta? Quem consegue viver pro resto da vida comendo pão de grãos e iogurte natural desnatado? (que é ruim até integral?) Pelo amor de Deus. Certamente a felicidade não está numa perna dura e num cérebro vazio. Não está num sorriso perfeito, nem num cabelo de novela. Ser feliz é mais, muito mais, bem mais que isso. Está dentro da gente, não no que a gente veste. Está no modo como a gente se mostra, não naquilo que as pessoas vêem.

Parem com essa ideia de quem só quem mostra a clavícula é que tem um corpo daora. Avião, gente, tem que ter pneu. A melhor parte da picanha é a gordurinha. E por aí vai.

Você nem sabe se a modelete lá, toda trabalhada no brilho, no salto e no gloss, majééérrima na capa da revista, está doente. Se está contente, se sofre por amor, se tem medo de escuro, se sente aflição ao estalar os dedos. Se gosta de Arnaldo ou de Marisa, se prefere dia ou noite, praia ou montanha. Você não sabe nada sobre ninguém analisando uma bunda. No máximo que ela perde um tempo danado fazendo agachamentos.

Se ser feliz é só desfilar um saco de ossos, deve ser muito fácil pras artistas namorar, né? Casar. Ter uma vida bacanuda. Deve ser fácil pra caramba ter essa obrigação com a imagem, não poder sair de havaianas e coque, não poder ir remelenta até a padaria. E isso se estende (obrigada @lecticia!!), às blogueiras de moda, de make, de cabelo, etc, etc etc, que são gente da gente. Nossas vizinhas, nossas amigas de bairro, nossas companheiras virtuais.

Não é fácil ser feliz, não. Nem pra quem tem muito dinheiro. Nem pra quem é óh, gostosona.

Se a  academia não funciona, se a calça não fecha, se a blusa cai mal…Vamos investir mais naquilo que está dentro da nossa cabeça e nos monstros que só a gente vê?

Tem gente precisando.

Continue Lendo