jardim de infância.

Conversamos dia desses, Luís e eu, no hall do prédio. Ele me contava como andava a vida, reclamou que as férias já estavam acabando, falou sobre futebol, sobre alguns poucos e sempre presentes amigos e, por fim, sobre garotas. Fiquei surpresa.

Ele, todo arrumadinho, do tipo criado (literalmente) com a vó, nunca havia mencionado menina nenhuma. Nem gorda, nem magra, nem chata, nem legal. Nem sobre as primas ele falava. Mas sobre a Mariana ele resolveu contar.

– Sabe, tia, ela é chata.

– Chata por que, Luís?

– Por que fica bolando planos com as outras meninas pra atrapalhar as nossas brincadeiras.

– Atrapalhar por que? Vocês não podem brincar juntos?

– Não, tia. Meninas e meninos não podem brincar juntos, tá na regra.

– Na regra de onde, Luís?

– Da escola, ué. Se um menino brincar com uma menina ele não é mais considerado tão menino. E eu também não gosto muito de meninas. Quando eu fico perto da Mariana me dá um negócio que incomoda.

– Negócio na barriga?

– Não, no peito. Parece que eu pulei na piscina e tô sem ar. Meninas fazem mal.

– Eu acho que você gosta da Mariana, Luís, por que você não chama ela pra brincar? Meninos podem brincar com meninas, olha só, tenho vários amigos meninos, você é menino.

– Mas voce é não é menina, você é gente grande.

– E gente grande é diferente?

– É porque se ela souber que eu me importo com ela, ela vai fugir. E sabe, tia, eu não gosto dela, mas não quero ter a certeza de que ela não gosta de mim.

E de repente eu comecei a ver tantas semelhanças entre a vida adulta e o jardim da infância  que fiquei com um pouco de medo de contar pro Luís que quando a gente vira gente grande continua exatamente do mesmo jeito.

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o mundo ideal.

Sempre gostei de ter a opção de controlar as coisas na vida. Não conheço quem pense diferente.

Gostaria e, ao mesmo tempo, não gostaria que cada ação determinada provocasse sua reação correspondente. Que conhecer alguém e se apaixonar, significasse namorar, noivar e casar. Sem muitas dores e ressentimentos no meio. Sem muitas pessoas erradas, famílias chatas, conflitos e maiores aborrecimentos. Gostaria de ter a certeza de que, se me empenhar de verdade, estudar, estagiar e trabalhar, alcançarei o emprego dos sonhos. A vida dos sonhos. Queria que todo mundo pudesse ter sua casinha, a comida que mais gosta, um animal de estimação pra servir de consolo quando alguma coisa mínima saísse fora da linha. Mesmo que nesse meu mundo mágico nada saisse fora da linha.

Gostaria de poder estar sempre perto dos amigos quando eles se sentissem sozinhos, nem que fosse pra dar a mão. Nem que fosse pra dizer que às vezes, algumas ações geram reações não confortáveis, mas nunca ruins de fato. Queria que as inseguranças não consumissem, nem tirassem o sono, queria que não houvessem inseguranças quanto ao amanhã.

O mundo poderia ser todo certinhoo, ninguém deveria perder pai, mãe, vó nem vô. Ninguém. E todo mundo deveria ter esses entes queridos nem que fosse pra achar melhor ter nascido sozinho. Mesmo que nunca achassem coisa assim.

Dizem que nada na vida teria graça se soubéssemos desde o começo do filme o seu final. Que se tudo fosse corretinho, seria entediante. Só sentiríamos frio na barriga na montanha russa e olhe lá.

Mas num dá uma vontade, daquelas bem grandes, de mandar o mundo parar um pouquinho de ser tão independente e girar um pouco conforme os nossos desejos?

Eu adoraria.

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saber viver.

Os seres humanos são os reis das cagadas. Na dúvida vão lá e pulam do precipício. Pensam, escolhem, não dormem por dias e voltam com o namorado que não presta porque acham que é o certo a ser feito. Ficam com alguém que não gostam de verdade porque têm um “compromisso verdadeiro” com essa pessoa. Amam o duvidoso. Porque, afinal de contas, o certo se for mesmo o certo vai dar certo alguma hora. E antes se arrepender de ter feito do que de não ter feito.

Não sei quem foi que disse que quando se trata de sentimentos loucos é melhor não ter razão. Aliás, sei quem disse, foi Lulu Santos. A razão em excesso é amigona do medo, e às vezes atrapalha. Mas como todos os extremos, essa máxima que habita todas as tretas amorosas modernas é tão burra quanto tentar fincar prego na areia. Se não pensar fosse a melhor maneira de se viver por que seríamos os únicos seres vivos racionais?

O problema do excesso de razão é te deixar cético. O problema do excesso de emoção é te deixar cético. No primeiro caso você passa a ignorar que as pessoas são capazes de amar. E no segundo caso, você é incapaz de pensar que elas possam ter qualquer tipo de atitude ruim.

Sou da política que as pessoas podem SIM, mudar. Pau que nasce torto, ao contrário do que fala o poeta, pode se endireitar. Mas é difícil. É complicado. E até que isso aconteça, muitas águas rolam por debaixo da ponte. São mágoas, incertezas, desconfianças… Que não são fáceis de passar por cima e esquecer. E que, quase sempre, não devem ser esquecidas mesmo.

Ao invés de ficar dando murro em ponta de faca que tal começarmos a nos amar um pouquinho? E a parar de achar que merecemos o pouco amor que recebemos?

Pra ser feliz é preciso pensar.

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