Memórias seletivas (ainda sobre ex-namorados)


Eu tive um total de (nem sei quantos, de verdade) namorados. Eu posso dizer que fiz a escolha certa ao casar, que vivi todas as coisas que poderia ter vivido e que de toda minha trajetória amorosa/romântica, guardo pouquíssimos arrependimentos e “e ses”. Os que guardo viraram curiosidade mesmo, de como seria a minha vida hoje caso eu ainda estivesse com aquele cara, caso eu tivesse insistido mais em um ou outro relacionamento. Caso eu não tivesse magoado ou ferido tanto, ou me magoado e ferido tanto, enfim, nunca saberemos, afinal.

Não sei se isso acontece com todo mundo, mas na minha cabeça, o passado vai mudando na memória. Aos poucos, a gente vai esquecendo das coisas ruins e ficando só com alguns flashes positivos de tudo o que viveu. A raiva, as traições, os problemas… Tudo vai embora. E se não foi, confiem em mim, chegou a hora de buscarem um encontro com vocês mesmos na terapia. Às vezes, nesse samba da memória seletiva, somem pessoas inteiras e, só então, eu consigo ver o que (e quem) realmente foi importante de todo aquele passado que, naquele momento, parecia ter tanta relevância. Eu até fico me perguntando se as pessoas que tiveram realmente algum significado foram as que ficaram por mais tempo, se ganharam esse posto por sua relevância ou simplesmente porque tiveram mais chance de acertar, tanto faz. Nas lutas do coração, nem sempre conseguimos fazer análises assertivas sobre o que é ou foi de fato importante, principalmente quando se trata do nosso.

De algumas pessoas lembro de frases completas em contrapartida de outras… Nada. Lá na casa dos meus pais tenho uma caixa gigantesca com cartas de amigos, crushes, pequenos casos, longos namoros e fotos da adolescência que eu nunca mais vi e, juro, nem se desse uma fuçadinha com atenção, conseguiria reavivar a mente: certamente, aqueles registros secretos de uma vida da qual eu nem me identifico mais sequer fazem sentido. E aí, lembro mais uma vez, da tal da memória seletiva, que se perdeu mesmo estando fixada no papel e nas evidências físicas e como fazemos um estardalhaço por nada. Ou pouco caso pelo o que realmente deveria ser levado em consideração, não importa. Pra não mentir dizendo que nada me faz lembrar coisa alguma, é comum que eu tenha alguns gatilhos sobre o que vivi com músicas e lugares –  e isso acontece com certa frequência. O mais maluco é que me dá um saudosismo não do outro, mas de quem eu era quando estava com o outro. E é incrível perceber como a gente pode mudar tanto em 4, 8, 12 anos. Como as décadas pulam como se fossem semanas, aquele papo de velho é realmente verdade: o tempo voa e quando a gente cai em si as coisas (todas) mudaram e nós, no meio de tudo isso, parecemos uma obra inacabada. Viver é estar em construção.

Deixe as coisas passarem e a vida tomar seu curso. Não se prenda a amores que parecem que nunca vão curar, dores que hoje machucam e sangram, mágoas que você carrega e consomem. Deixe ir embora. Porque as memórias ganham novo sentido e os afetos tendem a ocupar espaço na gente, sobrepor aquilo que fez mal. Afinal de contas, a vida do outro também está em movimento e não há sentido em ficar fazendo esforço para esbarrar novamente nela.

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