Se faz doer, não faça.


Eu não tenho pena de quem magoa as pessoas que eu amo.
 Simples assim. Fico puta mesmo, grito, xingo, amaldiçoo e demoro pelo menos algumas semanas para começar a organizar os sentimentos, ponderar os lados – e a entender os por quês. Vocês sabem que tudo nessa vida tem uma causa e uma consequência, não sabem? Sabem sim. É algo que aprendemos desde crianças, na prática, e que depois vivenciamos em diferentes esferas da vida adulta, obviamente, também nos relacionamentos. O tesão acabou, o encanto se foi, num dava mais pra aguentar as manias x, y, z do companheiro, não era bem aquela “felicidade toda de Instagram” fazia tempos, meses, anos, às vezes, enfim.

Quero dizer aqui que nada acaba do nada, não se engane. Ninguém se apaixona por outra pessoa sem esforço, sai de casa, muda a vida e f**e tudo sem dar uma pensadinha antes. Ouviram bem? Ninguém.

Ninguém é manipulado, tolo, maluco, fraco das ideias ou levado unicamente pelas emoções. Uma das maiores ferramentas para justificarmos a dor que vivemos ou fazemos a outra pessoa viver é a loucura, a insanidade, dizer que agimos sem pensar em uma determinada situação. Se, quando estamos com um problema, tudo o que fazemos é exatamente pensar sobre isso (ou sobre o nosso objeto de desejo ou desprezo) como temos a cara de pau de dizer que “não foi bem assim, não queria te magoar, foi mal, não medi as consequências”? Mediu sim. Mediu pra caralho. E eu acho que pior que magoar o outro é insistir em se justificar de alguma forma, ou ficar buscando no que havia (ou seja, no relacionamento anterior) motivos para legitimar algo que é de única e inteira responsabilidade de quem o fez.

Eu sei que é horrível dizer isso pra você, homem/mulher traído(a), mas o nosso companheiro sabe bem quando está em um processo de traição – e eu posso falar sobre isso porque já traí e fui traída inúmeras vezes, bem como já ajudei cornos e cornas amigas, colegas ou leitoras do blog. Traição é perfeitamente normal em humanos, é perfeitamente cabível em diferentes cenários, mas não pode ser justificada: só acontece porque duas pessoas, além das anteriormente já envolvidas, desejaram e optaram RA-CI-O-NAL-MEN-TE por isso. E ponto final. 

Dói pra caramba, pra todo mundo, pra quem traiu e foi traído, pros amigos, familiares e filhos. Uma sofrência geral. Dói porque, ainda que seja um processo, ou seja, exige reciprocidade, esforço e envolvimento das partes, sempre surpreende. Ou porque não queríamos ver o que de ruim estava lá, vivendo e convivendo com nossos sentimentos, ou porque tais problemas nunca foram considerados, de fato, problemas. Ou porque, no fundo, mesmo quando está tudo uma merda, tendemos a confiar naqueles que amamos. Cegamente. Afinal, sem confiança, melhor nem começar relacionamento nenhum.

Para corações partidos, onde a raiva habita e a solidão desola, tempo. Bons filmes, excelentes livros, café e bons amigos. Trabalhos com bastante afinco e dedicação, novas metas na dieta, de aprendizado, um curso, um hobby, uma mente disposta a ser melhor que a de ontem. Uma boa terapia, daquelas de sair chorando de soluçar, embalada daquela auto-avaliação de quem somos hoje, de quem queremos ser amanhã e do tipo de pessoa que buscamos e desejamos mesmo cultivar em nossas vidas: isso é urgente.

E para quem magoou, um grande foda-se. O mundo gira. E, também por experiência própria, posso dizer: vai doer muito mais que dói hoje. Vai piorar. Vai destruir, vai mudar tudo, virar do avesso. Vai ter arrependimento, vai ter caos, vai ter vontade de voltar e reconstruir o que nunca deveria ter terminado assim. Mas você vai ficar de boa. Você não vai ter a falta de decência de querer reconstruir o que não vai ser mais a mesma coisa. Até que aprendamos que antes da paixão, do tesão ou de qualquer sentimento impulsivo é preciso ter respeito. E que, sem ele, nem os maiores e melhores relacionamentos resistem – que dirá, os que no íntimo, já sabíamos que não iam mesmo durar.

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o tal do único e maior amor do mundo.

Eu costumava achar que tínhamos um único grande amor na vida. E chamava de grandes amores aqueles avassaladores, exagerados, cheios de problemas, ciúmes, descontroles e desaforos. Buscava sentir aquela angústia misturada com ânsia novamente, aquela agonia, uma coisa de tirar o fôlego, desnortear, bagunçar tudo, acabar com a gente.

Mas sabe, há alguns anos entendi que grandes amores não são assim. Também não acho que eles precisam ser pra sempre, aquela coisa da morte separar, da igreja casar, acho que o amor se transforma a todo o momento e também transforma quem somos. Eu descobri que amar é uma opção e não exatamente uma condição de sentir algo. E que amar também é uma construção de histórias e fatos que vivemos com alguém.

Hoje você não é quem foi um dia, quem foi naquele tempo, daquele outro amor ou do anterior àquele – você nunca sai de nenhum tipo de relacionamento sem se transformar de alguma forma. Assim sendo, amor(es) grandes, mais de um, são perfeitamente explicáveis – se você não é mais o mesmo, o que te leva a acreditar que vai sentir todas as coisas da mesma forma? Não vai. E que bom.

Eu entendo que vivemos de comparações. Entendo também que quando estamos feridos, magoados e nos recuperando do nosso último grande amor da vida tendemos a achar que aquele foi o melhor, ou a relembrar todos os anteriores que tinham muito potencial. Mas o fato é que a gente cagou de alguma forma, que burras nós éramos. Mas vocês sabem que ressentimento e dor de coração partido passam, né? Sempre. Então tá.

Você vai amar de novo, vai ser bom, maior, muito mais incrível. Pode não ser da primeira vez, talvez nem das cinco seguintes, mas em um ano podemos mudar a cor do cabelo, nosso tipo físico, alimentação, cidade, emprego e nosso grande amor eterno e verdadeiro também, ué. Acontece. E o tempo todo. E se não for na semana que vem, que enquanto isso, nos preparemos para ele.

Enquanto houver disposição, existem amores possíveis.

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Conselho da felicidade.

Ninguém se importa com a roupa que você usa, com as coisas que você come ou com quantas vezes você vai ou não à academia.

E, se alguém se importa, é porque você permite que essas coisas gritem maia alto do que aquilo que você é.

Seja.

Sempre.

Ainda que incomode.
Ainda que cause estranheza.
Ainda que as outras pessoas não entendam.
Quanto mais de você tiver na sua vida, mais rápido as pessoas passarão a se acostumar com a sua verdade. E mais rápido você vai se acostumar a ser quem é. Perdemos mais tempo nos desgastando pra caber onde não nos encaixamos que amando quem somos.
Ser fiel a si mesmo é uma transgressão.
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Anos e amigos que passam.

Eu era popular na escola. Eu sempre estava rodeada de pessoas, gostava de saber sobre suas histórias e, dificilmente, me sentia deslocada em um ambiente social – qualquer que fosse. Eu não sei se hoje sou exatamente assim, acho que as coisas, de uns 15 anos pra cá, mudaram um bocado. Acontece que a vida, quando possui uma rotina, obriga que criemos laços. Estar no mesmo ambiente, compartilhando dos mesmos desafios e encarando praticamente as mesmas dúvidas e anseios faz com que as amizades surjam naturalmente, por diferença ou semelhança, como uma grande rede de apoio na qual reconhecemos que é possível viver sem ninguém – mas que é muito mais chato, doloroso e solitário, afinal.

A vida adulta é complexa, é cinza, é híbrida. As rotinas se dividem em mais núcleos dos quais podemos controlar, nossas cargas emocionais e nossas histórias já não estão fixas em uma única unidade, como a escola, por exemplo. Temos o trabalho, temos a academia, as reuniões de condomínio. Temos a família (ou as famílias, quando nos casamos ou namoramos) e ainda podemos ter ao nosso lado todas aquelas pessoas que, em algum momento, tiveram sentido na nossa vida, que aqui eu vou chamar de “referências sólidas”. E, essas referências, ao meu ver, sempre foram as mais importantes, porém, as mais difíceis de manter sempre próximas. De manter vivas. De manter, de fato, amigas para o resto da vida.

A amizade é algo que não pede, ela exige presença. Exige que nos esforcemos e que esse esforço seja recíproco. Que insistamos em compartilhar nossa rotina, por mais simples que ela seja, que comemoremos as vitórias e choremos as derrotas. Assim como todos os relacionamentos, a amizade vive nas sutilezas. No universo silencioso da confiança e no ruidoso ato de viajar 10 minutos ou 10 dias para estar junto, de compreender e acolher mesmo que não se entenda, de aconselhar e se opor mesmo que não seja recomendado, mas, principalmente, de saber a hora certa de fazer cada uma dessas coisas. De saber que existem maneiras e palavras, de reconhecer limites. A vida adulta, ao contrário da vida adolescente, tem vários deles. E a gente não tem mais a visão total de como o outro anda por dentro, qual é a dinâmica da sua antiga ou nova família, do drama do outro, das dores do outro. A gente começa a ter problemas de adulto, que adolescente também tem, mas pai e mãe às vezes disfarçam, fingem que não está lá ou ignoram, simplesmente. É síndrome do pânico pra cá, depressão pra lá, uma endometriose, talvez, uma doença daquelas que ninguém gosta de mencionar, algo de errado na cabeça da gente que só os muito chegados, muito próximos, só quem quer mesmo saber, sabe.

É possível viver de aparência na vida adolescente, mas na vida adulta amizades que são vapor não se sustentam. Amigo de bar e balada não vingam. Fazem companhia, são úteis quando estamos nos sentindo sós, mas no domingo a noite se esvaem na mesma velocidade que surgiram. Amizade precisa ser, tem que ser e é obrigatório que seja bem mais profunda que isso. Íntima. Complexa. E é muito difícil ter solidez em qualquer coisa quando envelhecemos, porque adulto responsável não tem tempo pra porra nenhuma. Não dá pra ir em todos os happy hours, aniversários, chás de bebê, velórios, não dá pra estar em todos os acontecimentos importantes de quem um dia consideramos importante e, sejamos francos – às vezes nem queremos isso. Às vezes amamos muito alguém, por um número incontável de fatores, mas não queremos mais estar com aquelas pessoas que um dia nos foram tão fundamentais. Sei lá. Às vezes, porque, simplesmente, não as reconhecemos mais. Não concordamos com o que pensam sobre política, religião, sobre gays, negros, gordas, pobres, putas, não queremos lidar com suas opiniões tão distintas, dolorosas e imutáveis sobre essas delicadezas transformadoras que se impõe dia a dia e precisam ser faladas. Temos dificuldade em ser contrariados, questionados ou achamos que tamanhas diferenças não serão conciliáveis e, assim sendo, não valem o desgaste. Melhor ficar com a boa parte que sempre tivemos que nos decepcionar com o que essas pessoas se tornaram – incluindo aí o que eu mesma me tornei. E, delas, extrair o que há de melhor.

Não, não me entendam mal. Amigos não precisam sempre concordar com tudo. Amigos não precisam sempre estar presentes, dispostos, não precisam fazer muito esforço para se manterem vivos. Mas há uma solidão pouco falada na vida adulta, uma ausência de vínculos não amorosos de profundidade que se agravam com o passar dos anos, que me preocupam, na verdade, como a solidão sempre me preocupou.

Cultive amigos. Não desista deles. E esteja aberto para ter a transparência e a vulnerabilidade inerentes às melhores e mais vitalícias relações. Elas edificam, transformam, confortam, se fazem necessárias.  E mais que isso: valem a pena.

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Trabalhar para viver, viver para trabalhar.

Esse blog surgiu quando eu ainda escrevia tudo em folhas de papel almaço. Quando a internet ainda era terra de poucos aventureiros e quando quase não havia espaço pra que as pessoas falassem sobre aquilo que pensavam. Aqui eu falava sobre sentimentos, relacionamentos, decepções amorosas e mais uma série de percepções que eu tinha sobre o que achava que a vida adulta (ou a vida que eu vivia naquele momento) seria. Meus escritores favoritos, eram, em sua maioria, cronistas. Eu lia muito. Eu tinha um tempo incrível para dormir e aprender o que eu tivesse vontade. E embora eu amasse escrever desde aquele tempo, nem de longe imaginei que escrever seria uma parte fundamental – e talvez um pouco mecânica – da minha profissão hoje em dia. É aquela coisa: trabalhe com o que ame e…Você terá que se reinventar todos os dias porque até mesmo naquilo que amamos é complicado ser sempre genial.

De uns tempos para cá, abandonei bastante o blog. Pedi para a minha amiga/vizinha/parceira de todas as horas (que sempre dá um jeito em tudo) dar um talento no layout daqui, pra ver se as ideias fluiriam melhor com um visual mais “clean”, mas eu sempre voltava com a velha desculpa da falta de tempo. Dizem que a gente só não tem tempo para aquilo que não se esforça para colocar na agenda, não é mesmo? Fazemos tanta coisa por obrigação e encontramos espaço para tal…

Eu trabalho muito, eu acho. Faz parte da carreira que escolhi, parte da vida que acabei por levar. E priorizo as horas do meu dia para o trabalho. Me cobro sobre não ter mais ideias para postagens reflexivas e poéticas que sempre fluíram como rio por aqui, mas é muito interessante como cada fase da vida da gente tem seus por quês. Quando eu era novinha, achava que sabia de todas as coisas sobre o amor, hoje acho que não sei nada sobre absolutamente nada. Tenho minhas opiniões, mas elas mudam tão ferozmente (e o tempo todo) que chegar a uma conclusão sobre casamento, filhos, relações familiares ou divórcio se tornou algo muito difícil; cada caso é um caso e acho que a melhor certeza que podemos ter é não ter certeza nenhuma.

Com o tempo as pessoas também deixam de compartilhar seus problemas. Os adultos parecem não poder demonstrar suas fragilidades e embora estejam a todo o tempo publicando sobre suas vidas nas redes sociais, têm uma dificuldade imensa para viver suas dores, compartilhar suas felicidades e questionar um outro adulto responsável: cara minha vida tá uma merda, será que ser gente grande é isso tudo mesmo? Com você também é assim? E daí, sem me identificar com os problemas do outro, ou sequer saber deles, fica muito mais difícil encontrar o espaço que aperta o calo de todo mundo, aquilo que é comum, que a gente acaba vivendo vez ou outra e poderia muito bem tentar resolver.

Preferimos guardar. Preferimos calar. E, dessa forma, por aqui tudo ficou meio calado também – porque ao contrário do que se imagina, escrever é mais uma sobre trocas que individualidades. Para escrever, é preciso sentir dentro do que se observa e não só observar e criar conjunturas sem continuidade.

Hoje, deu um tempinho aqui antes do almoço e eu resolvi voltar a treinar a arte de começar a escrever sem um objetivo propriamente dito, apenas naquela velha torrente de pensamentos sobre todas as coisas e sobre nada, em simultâneo. Taí. E pelo que parece, vou tentar encaixar esse hábito novamente na agenda e passar também a compartilhar mais meus pensamentos por aí. Vai que resolve?

 

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As intermitências do tempo.

time spin GIF by Tony Babel
 Ser adulto é um negócio muito doido.

Você não repara que cresceu, não repara que o tempo passou. Ontem tinha 15, depois fez 18 e, no meu caso, nem conseguiu tirar carta de motorista, ainda. Em um estalo estava aqui, nos seus quase 31, com marido, casa e os amigos tendo filhos. Você não tem uma exata consciência de quando tudo mudou, como mudou e no que se tornou. Nesse processo, de praticamente 15 anos de intervalo, existiram tantos possíveis caminhos, pessoas, histórias e se perderam outros tantos (caminhos, pessoas e histórias) que aquela máxima de que o tempo voa se torna, de fato, uma verdade. O tempo é fumaça. Hoje você reclama que o dia não passa, que o trabalho está de matar, pisca, passaram-se semanas. Passaram-se meses. Você já fez aquela viagem, foi naquele show, já tirou férias, já trabalhou tudo de novo, já mudou de emprego e tudo já voltou ao início do que um dia parecia ser – mas que já não é mais.

Quando você vê, o cabelo não é mais o mesmo, nem a barriga. Você nem concorda mais politicamente com o que antes concordava. Já não sabe porque, como ou onde fez tais amigos e também não sabe porque se tornou amiga de pessoas tão diferentes de você – e em qual das suas versões aquelas pessoas fazim algum sentido. Já se sentiu sobrecarregado de tarefas e entediado na mesma medida, sufocado com uma legião de mentes para contar, atender e compartilhar a vida e, de repente, se sentiu sozinho. Já sofreu perdas e ganhos talvez na mesma proporção. Proporção essa que, talvez, nos próximos 30 anos, tenda a se desequilibrar na balança mais para perdas que para ganhos, afinal, mas não pensemos nisso. Nunca pensemos nisso.

Vivemos a vida adulta como uma sucessão de tarefas, de funções, de ambições, de sonhos, de dias corridos meio cinzas com cerveja e batata frita no final, mas não conseguimos parar muito para refletir sobre nada. Num dá tempo. E dá muito medo também pensar sobre as incertezas e sobre as certezas da nossa vida, se fizemos as escolhas certas, se estamos no caminho certo, nos questionamos até, e inclusive, sobre o que seria certo mesmo nessa bagunça toda. Continuamos a correr, e lutar e a conquistar coisas que não sabemos se queremos mesmo porque na vida é isso que nos cabe: fazer logo para que fique feito. Mesmo que não esteja bem feito. E se algum adulto te disser que sabe para onde está indo, desconfie. A gente até consegue trilhar caminhos, mas não tem como prever, nem nas cartas de tarô ou no horóscopo da Susan Miller, o que ainda não veio. Somos construção. E se faltar cimento, damos um jeito de colar as partes e de construir algo que nos caiba. Para o hoje, para amanhã ou no máximo para semana que vem. O tempo é fumaça. E não conseguimos guiá-lo – ainda que tentemos – com a precisão desejada. Talvez aí, ganhemos alguma coisa. Se não dá para solidificar o amanhã, do jeitinho que imaginamos, que hoje seja o melhor dia de todos os dias já vividos. Somos adultos mesmo sem todas as respostas. E talvez, nunca sequer saibamos as perguntas.

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Vamos falar sobre terapia.

2017 está sendo um ano de muitas mudanças na minha vida. De trabalho, pessoais, enfim, acho que essas mudanças acontecem pra todo mundo, eventualmente, mas de uns tempos para cá passei a perceber mais tudo isso.

Tanta coisa aconteceu junta que resolvi, inclusive, fazer terapia. Quando era adolescente, lá pelos meus 16 anos, já tinha passado por algumas seções por conta de ter problemas pra dormir e dificuldades reais em lidar com o fracasso. Sempre me cobrei demais em relação às coisas, mas acho que só me dei conta mesmo disso, de verdade verdadeira mesmo, esse ano.

Eu sempre estive ocupada demais para olhar pra dentro de mim. Acho, inclusive, que essa coisa de se ocupar demais o tempo todo tem muito a ver com não querer enxergar as coisas que te incomodam. Quando você vem de uma realidade privilegiada, como a minha, qualquer problema pode ser resolvido com algumas providencias familiares, sejam elas cursos, viagens, amigos e festas, e claro, terapia. A banalização da terapia pela classe média em que eu vivi toda a minha vida sempre me fez ter um pouco de preconceito por ela.

Talvez por isso, naquela época, eu não levasse minha saúde mental tão a sério. Naquela época, eu não via real efeito nos monólogos intermináveis da minha parte com a profissional em questão, era mais uma tarefa do meu dia, mais uma coisa padronizada que estava na minha to do list, sei lá, algo que me contaram que talvez me fizesse sentir melhor. A vida adulta, entretanto, me fez perceber que embora o profissional seja fundamental pra organizar algumas coisas dentro da gente, é importante que a gente mesmo perceba a necessidade disso.

Terapia não é coisa de gente maluca, é coisa de gente, simplesmente. Às vezes não nos damos conta que precisamos lidar com as questões emocionais para que todo o resto faça algum sentido, para encontrarmos um norte e um por que para nossas apreensões, medos ou até mesmo doenças físicas. Somos corpo, mas também somos alma, espírito, psyche ou como você quiser chamar. E tudo isso é muito mais complexo do que o passar, às vezes sem muita motivação, dos dias que sempre chegam. Eu não tenho nenhuma doença grave dos tempos modernos como depressão, por exemplo, mas passei a ver essas mazelas com outros olhos e a entender as pessoas que corajosamente declaravam ter e sofrer disso.

Sabe, todo mundo tem problemas. Mas não é bonito, não é glamouroso e também não é legal perder o controle sobre si mesmo, de qualquer forma que seja, seja para a ansiedade ou para a inércia. Os adolescentes, principalmente, têm se perdido um pouco nessa coisa de que ser diferentão, meio fechado e dark é cool. Até é se isso não te prejudica emocionalmente, sabe? Vamos ponderar essa conversa aí.

Você não precisa ver sombras ou ouvir vozes para passar a cuidar da sua cabeça – é ela que regula suas funções motoras, seus sonhos, sem sua mente seu corpo padece. Terapia, hoje, é quase obrigatória. É padrão social para sobreviver nas grandes cidades ou para encararmos a quantidade cada vez mais brutal de tarefas que precisamos dar conta, mesmo que elas só existam porque a gente as colocou lá.

Não tenha preconceito das coisas que nunca se permitiu tentar. Todas elas. Porque muitas vezes, nossa sorte ou azar mora nas atitudes que não tomamos em relação à vida. À nossa vida. Sei, que assim como a minha mente, a sua deve viver recheada de ideias, afazeres, pensamentos, mas não deixe que as pequenas micro coisas incômodas fiquem num cantinho escondido do seu cérebro, ignoradas, sendo marinadas para te consumirem um dia. Se ajude. E se precisar de um profissional para isso, tudo bem, tamo junto, faz parte.

Tá?

Então tá. =)

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Um “oi, queridos!” da sumida que aqui vos fala! =)

 

Minha gente, que loucura! Faz muito tempo que eu não escrevo por aqui, não é mesmo?

Além da vida corrida, dos afazeres de rotina, do meu casamento que se aproxima, etc, etc, andei priorizando outros espaços digitais em detrimento do Hiper, não sei se vocês sabem disso e também não sei exatamente por que nunca contei por aqui, mas continuo blogando vez ou outra por aí. Eu vivo dizendo para os quatro cantos desse planeta que as coisas na vida (todas), para darem certo, precisam de dedicação e esforço, de insistência, de paciência, mas em casa de ferreiro… O espeto é de pau. E na vida real não é tão simples assim.

Na sexta-feira passada, tive a honra de participar de um projeto muito bacana com pessoas bem incríveis, o Projeto Autoria, um festival literário que rolou na minha terra natal, na Baixada Santista. Fui convidada a falar sobre um pouquinho da minha expertise em Social Media, e a ideia era estimular discussões sobre comunicação de um modo geral. A programação, que era inteiramente gratuita, tinha muita gente diferente e cheia de insights. Honestamente, me surpreendi com a quantidade de pessoas que deixaram de ir ao bar tomar a clássica gelada de sexta para passar algumas horinhas discutindo sobre como ganhar dinheiro online comigo – e algumas cositas más.

Fiquei orgulhosa, como poucas vezes da minha trajetória pessoal. Sabe, há muitos, MUITOS ANOS, escrevo por prazer. Puro e simples. É claro que escrever faz parte da minha profissão, mas não é diretamente das letrinhas que vem meu sustento – e às vezes eu acho que deveria ser mais ousada, mais arriscada, mais vida loka, acreditar mais naquilo que eu digo constantemente para as pessoas e insistir nisso. Acho que encarar o Hipervitaminose ou qualquer outro veículo que publico meus textos como hobby, apenas, faz com que a frustração por não tornar esse espaço algo verdadeiramente rentável algo mais leve, mas, ao mesmo tempo, colocar nossos sonhos completamente de lado é bastante frustrante. Existem sempre dois lados: quando eu paro pra pensar quantas coisas o Hiper já me proporcionou, tudo parece incrível. Mas quando penso sobre onde poderia chegar se acreditasse mais que as coisas por aqui podem dar certo, seria ainda melhor.

Na mesa redonda que participei no SESC Santos, sobre Empreendedorismo Digital, pude perceber que as pessoas têm sede de conhecer, de trocar figurinhas, de ouvir de alguém que é difícil mesmo, mas que a dificuldade faz parte do processo. E gente, acho que gosto muito mais de falar que de escrever, poderia viver respondendo perguntas e falando em público, dando conselhos, fazendo consultoria. Eu amo essa troca de ideias com diferentes pessoas e a possibilidade de aprender tanto sobre elas quanto elas aprendem comigo. Porque vocês sabem, né? Na verdade, quem está lá, falando em público, sai com a cabeça fervilhando mais que quem assiste.

As tais dificuldades precisam nos impulsionar e não nos desestimular a continuar por aí fazendo o nosso melhor. É clichê, é padrão, é auto-ajuda, mas é verdade. Tudo que é simples e óbvio na vida é a mais pura verdade, é a gente é que fica buscando pelo em ovo, justificativas nas circunstâncias, negando as aparências, disfarçando as evidências, já sabem.

Por isso, digo ao povo que eu voltei. Pra ficar por aqui, para continuar lá no @dona_baratinha e também na deliciosa Trendr.

Nos vemos por lás.

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sonhos, expectativas e realidade.

Eu acho que sonhar é algo inerente à vida humana, mas sou cética. Não acho que quem acredita sempre alcança, como fala a música do Legião Urbana, acho que precisamos estar sempre conectados com a realidade para conseguir traçar planos objetivos que nos façam atingir nossos sonhos, porque, em caso contrário, a fantasia nos consome. Acabamos por não viver o hoje porque estamos sempre presos no amanhã e nos conceitos que criamos sobre como gostaríamos que fosse nossa vida, nos afastando, obviamente, da vida real em si.

Conheço uma mulher que almeja coisas que não possui na esperança de ter outras que a supram. Ela não consegue enxergar, na realidade dela as coisas reais de fato e se aprisionou na ideia de que é uma dona de casa infeliz, sem diversão, escrava de um casamento que não correspondeu aos seus sonhos da juventude. Essa mulher ainda se vê com 25 anos, buscando todos esses sonhos e ainda não conseguiu perceber que o tempo passou,que  ela fez algumas escolhas erradas aqui e ali e que a vida não é mole assim, como a gente pensa. Pra ninguém.

Não é que ela seja vítima do mundo, infeliz e mal sucedida, com ela a coisa fluiu como fluiu pra todo mundo, mas ela estava tão preocupada em ser quem não era e parecer mil coisas para os outros que esqueceu-se de que, para concretizar as coisas, é preciso escolher um caminho e persistir ele e não esperar que tudo se resolva como na novela das 21h00. Hoje essa mulher não se posiciona e não enxerga suas próprias conquistas, amadureceu fisicamente, mas não emocionalmente. Tem crises de ciúme adolescente, surtos emocionais de carência e toma atitudes estúpidas, que afastam as pessoas, numa busca desenfreada de atenção. Ela não é má pessoa, apenas sofre com uma construção de vida da qual não consegue se libertar e nem enxergar a realidade como ela é.

Infelizmente, e eu sei que demoramos a aceitar esse fato,  não podemos ter tudo sempre. Sonhos que não são práticos beiram à loucura e não nos direcionam a lugar algum. A gente precisa construir nossas aspirações a partir do solo que a gente tem e não querer voltar no tempo, ou desejar a vida do outro, ou uma realidade completamente distante da nossa. Eu acho que nunca é tarde para mudarmos de rumo, darmos a volta e fazermos outro caminho, mas esse conceito de que a vida é unicamente uma construção nossa precisa ser quebrado.

Existe sorte sim, acaso sim, e gente que cavou oportunidades de um jeito inesperado, nem tudo é só aquilo que desejamos, buscamos desenvolver e evoluir linearmente. Filho não segura casamento, ensino superior não garante emprego, bom emprego não garante felicidade e ter dinheiro ajuda, mas não é tudo. Precisamos saber lidar com os nossos fracassos, buscar um recomeço e, acima de tudo, sermos palpáveis e gentis com os nossos sonhos.

Pior que gente não realizada é gente que segue a filosofia Xuxa de que “tudo pode ser, basta acreditar.” Tudo pode ser. Basta planejar muito, trabalhar duro e sofrer bastante. Faz parte.

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A vida que a gente inventa.

Existe uma coisa muito louca – e muito triste – sobre a vida adulta: a tal da frus-tra-ção. Essa palavra tão pequena, tão objetiva e tão cheia de sentido é muito, muito difícil de ser superada. A gente finge que lida bem com ela, enfia todos os sentimentos relacionados à dor e a angustia provocada bem no fundo do peito, coloca um sorriso no rosto e finge, literalmente, que nada está nos abalando ao longo dos dias. Nadinha de nada.

Quando ficamos adultos percebemos a essência de todos os problemas familiares passados, compreendemos de onde vieram as proibições, as broncas e, principalmente, as restrições da nossa infância. Sabe aquela frase que sua mãe repetia incessantemente quando queria justificar algo aparentemente injustificável? “Quando você chegar nessa fase você vai entender?” Então, chegamos. E percebemos que entender é muito mais simples que aceitar as realidades – prazeres e dessabores – de como a vida se apresenta.

A gente é um universo. Inventa um montão de coisas na nossa cabeça ao longo de toda infância e juventude e acredita, piamente, que é capaz de fazer tudo, ser tudo, chegar em qualquer lugar. E é. Só que nada é tão simples como uma festa de 15 anos, nada é tão fácil quanto era, olha só, aquela prova final de Física. Ser adulto é um eterno saber administrar decepções. Não se escravizar pelos próprios erros. Levantar, sacudir a poeira e voltar a caminhar. É tentar manter a sanidade em meio a diferentes desequilíbrios profissionais, financeiros e pessoais, lidar com pessoas, medir palavras, melhorar e evoluir filtros. A todo o momento. Adulto não tem duas férias escolares por ano. Não tem tempo de lavar a roupa, de dormir bem, de se alimentar com equilíbrio – a gente tenta, o tempo todo, mas nunca chega naquele momento em que se sente satisfeito com a vida como ela está, o que motiva e desmotiva a gente, como numa gangorra.

A gente é feliz, a gente conquista um monte de coisas, a gente evolui, a gente não pára de batalhar – e nem pode – mas não vive, definitivamente, aquela vida que a gente criou na mente e achou que seria natural. Não existe sucesso natural ou felicidade natural a gente constrói as coisas que quer e, digo mais: da maneira que dá.

Você pode estar super bem resolvido aos 25, ou não, você pode ter uma família totalmente estruturada aos 35, ou não, você pode ter tido filhos – ou até netos – aos 45, ou não. Não existe mais aquela lineariedade pueril. Depois da 5a série não necessariamente vem a 6a, a gente às vezes pula logo pro colegial,e tem que se virar de alguma forma, ou regride lá pra pré-escola e tal, sofrendo de coisas que achou que já tinha superado, faz parte.

É assim pra mim, pra você, é assim até práqueles seus amigos que já tem casa, comida, viagem internacional todo o ano e ainda acham que não conquistaram nada.

Tá infeliz? Levanta e anda. Opte por viver pelo menos uma parte do que você inventou. Se não, você fica preso sempre na fantasia e, convenhamos, a realidade um dia te cobra. E dói pra caramba.

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