A lista

Eu fiz uma lista de qualidades dos meus ex-namorados, assim, do nada. Acho horrível essa coisa dos relacionamentos, via de regra, terminarem em ódio e sempre busquei ter uma boa relação com o meu passado, embora, olhando em retrospecto, acredite que o ódio ensine muito sobre o amor.

O objetivo dessa lista descabida, no auge dos meus 31 anos, era tentar encontrar um padrão entre os diferentes tipos com os quais eu me relacionei ao longo dos anos. E, claro, relembrar com carinho de quem eu era, de grande parte da minha juventude, de uma considerável parte da minha vida adulta e de olhar para quem eu me transformei passando por tudo isso.

Eu carrego poucos arrependimentos no quesito relacionamentos, para ser bem honesta. Eu nunca fui a mais bonita, a mais inteligente, a mais rica, a mais desenvolta ou a mais desencanada, mas posso dizer, sem sombra de dúvida, que eu sempre, sempre estive e sempre fui, muito presente. E em cada momento, plano ou situação dentro dos meus muitos namoros, eu fui quem eu era. Quem eu podia ser. E fiz isso por inteiro.

Um dos meus ex namorados tinha um gosto musical incrível. Foi ele quem me ensinou a gostar e a pesquisar sobre artistas desconhecidos e a ouvir coisas fora daquilo que tocava nas rádios. Em um tempo onde não existia, sequer, a possibilidade de sonharmos com o Spotify, grande parte daquilo que hoje acho incrível e indispensável para uma boa playlist, descobri com ele, ouvindo no carro, nas nossas idas e vindas entre um rolê e outro. Vieram dele as músicas que embalam, até hoje, os meus dias de trabalho e que me fazem sacolejar com o  groove mesmo sentada na cadeira. Foi com ele que eu aprendi que música é aquilo que faz a gente sentir, qualquer coisa que seja, e que música boa é só uma questão de opinião. E mais nada.

Eu tive ex namorados bem nerds, sempre fui com a cara dos homens inteligentes, que sabiam fazer rir. Se tem um ponto em comum em todos os homens que amei na vida é esse: a capacidade de entreter. De saber sobre Star Wars e produto interno bruto ao mesmo tempo. De gostar do que é erudito e do que é popular, sem desemerecer uma coisa ou outra.

Um outro dos meus ex namorados (sim, tive muitos) me ensinou a sempre persistir. Confesso que sou dessas pessoas um pouco  impacientes, que não enxerga o final da caminhada, mas sempre repara nos percalços do caminho e sofre com todos eles, mas ele não era nem um pouquinho assim. Eu tinha medo de tudo e ele me ensinava a caminhar e, mesmo com medo, a continuar. Esse meu ex-namorado me contou, assim que a gente se conheceu, que ele tinha um sonho muito louco pra época. Com o passar dos anos, percebi que ele, o tempo todo, continuou focado nisso. Hoje, constantemente, esbarro no profissional incrível que ele se tornou, e ele está exatamente onde um dia ele disse que estaria. Dele, comento até com o meu marido, morro de orgulho. E continuo acompanhando as evoluções, as vitórias e tudo aquilo que, quando a gente vira adulto, passa a chamar de sucesso.

Tive um outro ex que me ensinou a expressar meus sentimentos com palavras. Quando a gente namorava e, por algum motivo qualquer, discutia, eu entrava em um estado de nervos tão louco que não conseguia me fazer entender. Era choro e gritaria pra todo lado, noites sem dormir, horas de espera para reencontrá-lo, fazer as pazes e toda a essa seara recomeçar. Eu tinha muito ciúmes, era mais velha, não conseguia entender que o amor pode ter diferentes formas e, naquele tempo, só reconhecia a minha. Foi então que, para desabafar e organizar as ideias, eu passei a escrever cartas e mais cartas manchadas de lágrimas, extasiadas, totalmente confessionais. Entregava todas. E a vida, as dores e as emoções, registradas no papel se tornavam muito mais palpáveis e simples de resolver, tão simples até não terem quase nenhuma importância. E foi com esse ex que, inclusive, também aprendi sobre justiça e o quanto as coisas que fazemos, para o bem ou para o mal, constroem cada tijolinho de quem um dia nos transformamos no futuro. Principalmente, ensinam sobre quem não queremos ser. Ainda bem.

Tive o ex que tentou me ensinar a dirigir (não tenho habilitação até hoje), que me levava para viajar para lugares aventureiros (eu odeio ecoturismo), um outro que me ajudou a estudar e a fazer projetos complexos e memoráveis. Tive ex-namorados que preferiam meu cabelo longo e liso, uns curto, outros comprido, uns que me achavam magra e elegante, outros magra e esquelética. Eu tive ex namorados que me ensinaram sobre o meu corpo, minhas neuroses, me fizeram confiante e, muitas vezes, completamente insegura. Eu aprendi a gritar, a me defender, a desculpar, a corrigir, a melhorar. Graças a cada um dos meus ex namorados me tornei mais dona da minha própria vida, mais convicta das minhas escolhas, muito mais preparada para qualquer tranco: tomei vários.

Espero, que para os ex namorados de Ericka Rocha, também tenham ficado as boas memórias. E que de toda a mágoa que a gente provoca ou sofre, de tudo que incomoda e a gente quer mudar, de cada discussão ou dor, fique também a certeza de que estamos, constantemente, em construção.

Namorar não é nem o treino, é o aquecimento do jogo, a parte mais difícil do desenvolvimento das pessoas que estão sempre sendo formadas: é a mudança do outro, refletida na gente. E da qual, nem sempre, somos capazes de entender antes do fim.

Obrigada, foi mal mesmo, desculpas por tudo, e que vocês tenham de mim os mesmos sorrisos e boas histórias que eu guardo de cada um de vocês. Hoje eu sou melhor, porque um dia pude errar, viver, me transformar e me encontrar. Em parceria com os outros.

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