Se faz doer, não faça.


Eu não tenho pena de quem magoa as pessoas que eu amo.
 Simples assim. Fico puta mesmo, grito, xingo, amaldiçoo e demoro pelo menos algumas semanas para começar a organizar os sentimentos, ponderar os lados – e a entender os por quês. Vocês sabem que tudo nessa vida tem uma causa e uma consequência, não sabem? Sabem sim. É algo que aprendemos desde crianças, na prática, e que depois vivenciamos em diferentes esferas da vida adulta, obviamente, também nos relacionamentos. O tesão acabou, o encanto se foi, num dava mais pra aguentar as manias x, y, z do companheiro, não era bem aquela “felicidade toda de Instagram” fazia tempos, meses, anos, às vezes, enfim.

Quero dizer aqui que nada acaba do nada, não se engane. Ninguém se apaixona por outra pessoa sem esforço, sai de casa, muda a vida e f**e tudo sem dar uma pensadinha antes. Ouviram bem? Ninguém.

Ninguém é manipulado, tolo, maluco, fraco das ideias ou levado unicamente pelas emoções. Uma das maiores ferramentas para justificarmos a dor que vivemos ou fazemos a outra pessoa viver é a loucura, a insanidade, dizer que agimos sem pensar em uma determinada situação. Se, quando estamos com um problema, tudo o que fazemos é exatamente pensar sobre isso (ou sobre o nosso objeto de desejo ou desprezo) como temos a cara de pau de dizer que “não foi bem assim, não queria te magoar, foi mal, não medi as consequências”? Mediu sim. Mediu pra caralho. E eu acho que pior que magoar o outro é insistir em se justificar de alguma forma, ou ficar buscando no que havia (ou seja, no relacionamento anterior) motivos para legitimar algo que é de única e inteira responsabilidade de quem o fez.

Eu sei que é horrível dizer isso pra você, homem/mulher traído(a), mas o nosso companheiro sabe bem quando está em um processo de traição – e eu posso falar sobre isso porque já traí e fui traída inúmeras vezes, bem como já ajudei cornos e cornas amigas, colegas ou leitoras do blog. Traição é perfeitamente normal em humanos, é perfeitamente cabível em diferentes cenários, mas não pode ser justificada: só acontece porque duas pessoas, além das anteriormente já envolvidas, desejaram e optaram RA-CI-O-NAL-MEN-TE por isso. E ponto final. 

Dói pra caramba, pra todo mundo, pra quem traiu e foi traído, pros amigos, familiares e filhos. Uma sofrência geral. Dói porque, ainda que seja um processo, ou seja, exige reciprocidade, esforço e envolvimento das partes, sempre surpreende. Ou porque não queríamos ver o que de ruim estava lá, vivendo e convivendo com nossos sentimentos, ou porque tais problemas nunca foram considerados, de fato, problemas. Ou porque, no fundo, mesmo quando está tudo uma merda, tendemos a confiar naqueles que amamos. Cegamente. Afinal, sem confiança, melhor nem começar relacionamento nenhum.

Para corações partidos, onde a raiva habita e a solidão desola, tempo. Bons filmes, excelentes livros, café e bons amigos. Trabalhos com bastante afinco e dedicação, novas metas na dieta, de aprendizado, um curso, um hobby, uma mente disposta a ser melhor que a de ontem. Uma boa terapia, daquelas de sair chorando de soluçar, embalada daquela auto-avaliação de quem somos hoje, de quem queremos ser amanhã e do tipo de pessoa que buscamos e desejamos mesmo cultivar em nossas vidas: isso é urgente.

E para quem magoou, um grande foda-se. O mundo gira. E, também por experiência própria, posso dizer: vai doer muito mais que dói hoje. Vai piorar. Vai destruir, vai mudar tudo, virar do avesso. Vai ter arrependimento, vai ter caos, vai ter vontade de voltar e reconstruir o que nunca deveria ter terminado assim. Mas você vai ficar de boa. Você não vai ter a falta de decência de querer reconstruir o que não vai ser mais a mesma coisa. Até que aprendamos que antes da paixão, do tesão ou de qualquer sentimento impulsivo é preciso ter respeito. E que, sem ele, nem os maiores e melhores relacionamentos resistem – que dirá, os que no íntimo, já sabíamos que não iam mesmo durar.

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Anos e amigos que passam.

Eu era popular na escola. Eu sempre estava rodeada de pessoas, gostava de saber sobre suas histórias e, dificilmente, me sentia deslocada em um ambiente social – qualquer que fosse. Eu não sei se hoje sou exatamente assim, acho que as coisas, de uns 15 anos pra cá, mudaram um bocado. Acontece que a vida, quando possui uma rotina, obriga que criemos laços. Estar no mesmo ambiente, compartilhando dos mesmos desafios e encarando praticamente as mesmas dúvidas e anseios faz com que as amizades surjam naturalmente, por diferença ou semelhança, como uma grande rede de apoio na qual reconhecemos que é possível viver sem ninguém – mas que é muito mais chato, doloroso e solitário, afinal.

A vida adulta é complexa, é cinza, é híbrida. As rotinas se dividem em mais núcleos dos quais podemos controlar, nossas cargas emocionais e nossas histórias já não estão fixas em uma única unidade, como a escola, por exemplo. Temos o trabalho, temos a academia, as reuniões de condomínio. Temos a família (ou as famílias, quando nos casamos ou namoramos) e ainda podemos ter ao nosso lado todas aquelas pessoas que, em algum momento, tiveram sentido na nossa vida, que aqui eu vou chamar de “referências sólidas”. E, essas referências, ao meu ver, sempre foram as mais importantes, porém, as mais difíceis de manter sempre próximas. De manter vivas. De manter, de fato, amigas para o resto da vida.

A amizade é algo que não pede, ela exige presença. Exige que nos esforcemos e que esse esforço seja recíproco. Que insistamos em compartilhar nossa rotina, por mais simples que ela seja, que comemoremos as vitórias e choremos as derrotas. Assim como todos os relacionamentos, a amizade vive nas sutilezas. No universo silencioso da confiança e no ruidoso ato de viajar 10 minutos ou 10 dias para estar junto, de compreender e acolher mesmo que não se entenda, de aconselhar e se opor mesmo que não seja recomendado, mas, principalmente, de saber a hora certa de fazer cada uma dessas coisas. De saber que existem maneiras e palavras, de reconhecer limites. A vida adulta, ao contrário da vida adolescente, tem vários deles. E a gente não tem mais a visão total de como o outro anda por dentro, qual é a dinâmica da sua antiga ou nova família, do drama do outro, das dores do outro. A gente começa a ter problemas de adulto, que adolescente também tem, mas pai e mãe às vezes disfarçam, fingem que não está lá ou ignoram, simplesmente. É síndrome do pânico pra cá, depressão pra lá, uma endometriose, talvez, uma doença daquelas que ninguém gosta de mencionar, algo de errado na cabeça da gente que só os muito chegados, muito próximos, só quem quer mesmo saber, sabe.

É possível viver de aparência na vida adolescente, mas na vida adulta amizades que são vapor não se sustentam. Amigo de bar e balada não vingam. Fazem companhia, são úteis quando estamos nos sentindo sós, mas no domingo a noite se esvaem na mesma velocidade que surgiram. Amizade precisa ser, tem que ser e é obrigatório que seja bem mais profunda que isso. Íntima. Complexa. E é muito difícil ter solidez em qualquer coisa quando envelhecemos, porque adulto responsável não tem tempo pra porra nenhuma. Não dá pra ir em todos os happy hours, aniversários, chás de bebê, velórios, não dá pra estar em todos os acontecimentos importantes de quem um dia consideramos importante e, sejamos francos – às vezes nem queremos isso. Às vezes amamos muito alguém, por um número incontável de fatores, mas não queremos mais estar com aquelas pessoas que um dia nos foram tão fundamentais. Sei lá. Às vezes, porque, simplesmente, não as reconhecemos mais. Não concordamos com o que pensam sobre política, religião, sobre gays, negros, gordas, pobres, putas, não queremos lidar com suas opiniões tão distintas, dolorosas e imutáveis sobre essas delicadezas transformadoras que se impõe dia a dia e precisam ser faladas. Temos dificuldade em ser contrariados, questionados ou achamos que tamanhas diferenças não serão conciliáveis e, assim sendo, não valem o desgaste. Melhor ficar com a boa parte que sempre tivemos que nos decepcionar com o que essas pessoas se tornaram – incluindo aí o que eu mesma me tornei. E, delas, extrair o que há de melhor.

Não, não me entendam mal. Amigos não precisam sempre concordar com tudo. Amigos não precisam sempre estar presentes, dispostos, não precisam fazer muito esforço para se manterem vivos. Mas há uma solidão pouco falada na vida adulta, uma ausência de vínculos não amorosos de profundidade que se agravam com o passar dos anos, que me preocupam, na verdade, como a solidão sempre me preocupou.

Cultive amigos. Não desista deles. E esteja aberto para ter a transparência e a vulnerabilidade inerentes às melhores e mais vitalícias relações. Elas edificam, transformam, confortam, se fazem necessárias.  E mais que isso: valem a pena.

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